O efeito colateral do Biotônico


Acho que ainda não narrei aqui um fato casual ocorrido quando contava com mais ou menos oito anos de idade  e que foi decisivo para que eu viesse a estudar e tentar a sorte na Literatura. A gente morava num rancho de folhas de palmeiras, afastado de vizinhos. Naquele tempo e lugar o normal era que ninguém soubesse ler e escrever, a não ser os patrões. Minha mãe não lia, meu pai apenas soletrava, mas tinha dificuldades em reunir as sílabas em palavras, numa espécie de gagueira pré-leitura. Às margens do Rio Claro, no Oeste Goiano, meu destino, como o das demais crianças, parecia já bem definido: seria analfabeto e trabalhador rural sem terra, como meus pais.  Um belo dia um divulgador do Biotônico passou por lá. Fez degustação com uma colherzinha de chá da tintura para cada um de nós. Achei gostoso. Nem parecia remédio, pois os que minha mãe fazia de casca, raiz ou folha eram sempre amargos ou de gosto horrível.  Me viu magrelo o homem e logo argumentou que o remédio era bom pra abrir o apetite, e tal. Como meu pai não tinha dinheiro para a aquisição, rebateu com espírito: Apetite ele tem. Até demais.

O que falta é comida. Sem jeito de realizar a venda o homem ficou por ali esperando que saísse qualquer coisa pra comer. Meu pai caprichou: jogou um cacete no pescoço de um frangote que ciscava na larga, que ele acertou de primeira, e minha mãe fez com molho de açafrão. O feijão já estava cozido na trempe lá fora e o arroz pilado e lavado na cuia. O assunto com meu pai parecia  apagar  e para não ficar à-toa enquanto esperava, ele puxou de um revistinha e começou a ler pra mim umas charadas do tipo o que é, o que é: nasce em pé e corre deitado? Passou para umas historinhas, que vim saber mais tarde que eram de Monteiro Lobato. Fiquei encantado: como podia alguém correr os olhos sobre aquele tanto de formiguinhas mortas em cima do papel e ir falando coisas que eu achava tão bonitas?! 

Depois do almoço, após elogiar a hospitalidade, o molho de frango e meu interesse pela leitura, ele se foi. E para meu júbilo deixou um exemplar do Almanaque.  Como prestara atenção na leitura eu repetia em voz alta as charadas e as historinhas. Sempre que havia oportunidade de encontrar alguém eu sacava logo do Almanaque, que levava no embornal e “lia” para os interlocutores.  Todo mundo fingia achar que eu sabia ler. Hoje sei que é fingimento porque nunca me chamaram para ler algum bilhete ou carta que parentes houvessem mandado.

A partir daquela experiência, como efeito colateral do remédio, adquiri e reforcei a convicção de que eu iria estudar ainda, aprender a ler de verdade e escrever histórias como aquelas. Ninguém acreditava nisso, além de mim. Não existiam escolas num raio de 40 km e nem recursos havia para que eu fosse pra perto de uma delas. Meu pai não ia deixar seu meio de vida no sertão. Mas a roda da vida foi girando, orientada por esse propósito, de tal sorte que em 1963, aos 11 anos,  com a venda de minha parte numa colheita de feijão, comprei meu primeiro enxoval de estudante entrei pro curso primário no Grupo Escolar Israel de Amorim, em Iporá. Acho que foi um milagre. O que posso fazer para beatificar o Almanaque do Biotônico Fontoura?  


Publicada no jornal O Popular - Goiânia - Goiás em abril de 2014.

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